sábado, outubro 09, 2004

Canção Outonal

Maria d´olhos pisados,

Que até parece que velaste

A noite inteira p´los eirados

E com o rouxinol te deitaste…

 

A romaria dos meus desejos

Simples e castos, virginais,

Há-de pousar alva, aos adrejos,

Sobre os teus beiços auroreais.

 

Pastora bíblica, tua boca,

É rosa a abrir à luz dos ninhos;

Resisto à tentação louca

De t´a beijar, porque tem espinhos…

 

Espinhos que na boca tens

Meu coração que o diga, o pobre!

Quando de beijos a rosa cobre

Ensanguentam-no teus desdéns…

 

Foi-se-me toda a alegria

Não tem o olhar quem n´o acoite;

Eras p´ra mim o que é o Sol p´ra o dia,

E o que é o Luar p´ra meia noite…

 

Vamos sentar-nos à lareira

Naquela doce paz antiga,

E à luz doirada da fogueira

Hás-de cantar uma cantiga.

 

Triste, como o são as saudades

Neste meu peito ermo d´amores,

Que é como um convento sem frades

E um jardim sem já ter flores!...

 

Afonso Lopes Vieira

1 Comments:

Blogger PQ said...

Belo poema de Outono, voz dum poeta caído em esquecimento. Reflexos de um tempo bucólico em que os segundos se esvaiam lentamente tendo como fundo só paisagens. A poesia couto de paixões como convém; refúgio de sentimentos.

09 outubro, 2004 15:39  

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