quarta-feira, outubro 13, 2004

Frio de Outono

Hoje choveu por aqui. As gotas de água fria e o vento sibilante lembraram-me que é Outono, com sabor a Inverno. São correntes gélidas que entram nos poros sem pedir licença ao corpo e rasgam as cicatrizes num corpo de mulher. Ao longe, o mar não canta como costume, antes desata lágrimas de sal, vertidas numa qualquer tempestade.

E eu que pensei que as palavras dormiam sossegadas! Teimaram em gritar em ecos de silêncio, como se a alma rebentasse nas mãos. Teimaram em surgir por entre neblinas de melancolia, a mesma que tantas vezes me faz imaginar sons de violino, em acordes venezianos. A mesma que muitas vezes me faz ouvir sons de cristais em casas assombradas. Acordaram, pois, as palavras que vão preenchendo a folha alva, mas tenho a voz calada, presa nos braços do tempo, enjaulada nas asas dos sonhos incumpridos, encarcerada nos caminhos onde me perdi… e uma réstia de mim nunca se encontrou.

Hoje já não há gaivotas, só negros corvos que esvoaçam, nervosos, num céu sem azul, num sol sem luz e numa terra sem nome. Hoje só eu existo, numa sinfonia de puro egoísmo, onde me apetece ser a única pessoa no mundo a sentir o frio de Outono.

1 Comments:

Blogger PQ said...

O corpo, as palavras, a música e os sonhos e o frio...
Elementos desta sinfonia partilhada na palavra escrita.

14 outubro, 2004 17:58  

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