sábado, outubro 23, 2004

Memórias da minha infância - Piedade Araújo Sol

Sempre gostei de brincar com as letras, e elas dão azo a que desde miúda, sempre brincasse também com as palavras. Engraçado. Enquanto as outras miúdas brincavam com bonecas, eu não. Eu brincava com as palavras. E devorava livros. Lia-os de fio a pavio, fosse qual fosse o tema.

 

A minha casa era enorme daquelas casas de pedra, com muitos quartos amplos, pintados a cal branca. Mas o meu refúgio era o sotão lá de casa. Existia um sotão grande e comprido a que eu chamava de meu castelo, e era lá que eu me refugiava, e inventava com as palavras escritas em letras cheias e perfeitas, os príncipes e princesas que faziam parte das minhas histórias e dos meus sonhos.

 

Eram sempre amores impossíveis, princesas que gostavam de plebeus ou vice-versa, mas que eu não conseguia que eles casassem uns com os outros, e que no fim tudo batesse certo.

 

Ficção, pura e simples. Nas minhas histórias havia lágrimas, amor, mas no fim nada batia certo.

 

Passaram tantos anos já, e agora vejo, quão diferente se torna a nossa realidade. É diferente das histórias que eu imaginava e lia na minha infãncia. Nelas as personagens casavam e tinham muitos filhos, e eram felizes para sempre.

 

Eu sempre fui diferente das outras miúdas. Sempre vivi num mundo só meu, impenetrável para os outros e, onde me sentia tão feliz, onde era eu própria, princesa venerada e amada, por um princípe que chegava num alazão branco e me raptava para o seu castelo, algures num País de que eu nunca ouvira falar e de que nem sabia o nome.

 

Hoje, cresci, e esse mundo ficou encerrado no sotão da minha casa de campo, de pedra escura e aparelhada, pintada a cal branca, algures num sítio verdejante e ainda um pouco virgem. Às vezes quando lá vou, deito uma olhadela, ao sotão mas assalta-me uma nostalgia profunda, que às vezes prefiro não entrar.

 

Havia também uma ribeira junto à casa. Era lindo ver as águas a correr, e eu conseguia inventar uma história que depois passava para o papel. As águas corriam e eu imaginava duendes a descer as cascatas, e se banharem naquelas águas às vezes tão revoltas. Havia também flores, e do que eu mais tinha pena era de nunca ter visto uma flor a desabrochar, imaginava que se olhasse demoradamente para ela, ela se abriria para mim. Mas é claro que isso nunca aconteceu. Nem podia, na minha imaginaçao de criança é que eu pensava que isso era possível.

 

Cresci. Hoje já não tenho histórias para escrever, pois faltam-me os personagens, ou talvez não; mas prefiro não fazer. Seriam histórias tristes em que o final ficaria em suspenso e isso ninguém se ia interessar sequer a ler.

 

Hoje prefiro encarar a realidade e sorrir para a vida. Sorrir mesmo quando me apetece chorar. E se me apetecer chorar, não o vou fazer. Vou sorrir, porque sorrindo vou ser mais e mais feliz.

 

 

Piedade Araújo Sol

3 Comments:

Blogger JPN said...

que delícia!

24 outubro, 2004 14:47  
Blogger Justamente Eu said...

mesmo lindo.sem palavras

24 outubro, 2004 20:41  
Blogger PQ said...

Um abraço de solidaridade para a Piedade.
Continua a produzir a tua prosa e os teus poemas pois eles falam de ti, que a tua voz nunca se cale.

26 outubro, 2004 19:38  

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