domingo, outubro 10, 2004

Síntese

Verte-te tinta, espicha, fluí na folha branca, percorre espaços, conquista o solo árido. Só nos dias de breu ou naqueloutros de espasmo te é permitido acordar, esticar teus braços finos e ocupar os lugares. Tinta preta, vejo-te engrossar o traço na medida da emoção. Vejo como, nunca serena, me miras de soslaio e por cósmica telepatia me segredas: - que vai sair daqui hoje? Não esperas resposta, sabes que quando sais do tinteiro, algo está para acontecer, sabes que da pergunta a resposta se quedará muda.

Destes dedos saem símbolos estranhos, quase nunca feitos tempo-espaço, são símbolos de devir em forma de meros prenúncios. A linhas que se a-linham organizam-se numa estrutura invisível, como dendrites procuram outras linhas, perseguindo o futuro. Uns minutos depois, os finos cabelos agitam-se em movimento, gera-se então o novelo, a fonte de toda a sabedoria. Nele se vislumbram ainda as pontas soltas que espreguiçando-se encontrarão outros novelos e assim, em perpétuo devir, formarão o Sistema.

O Pensamento conclui-se por fim quando novelo roda sobre si mesmo, homogéneo, planetário. Pensamento de incerteza, completo breu, buraco negro mas já em movimento para alguma coisa. Do Novelo, fruto do interagir temporal, acabam por emergir pequenos pontos luminosos. È vê-los rodopiar animados por sons longínquos, demasiado brandos, demasiado ténues, fracos como bébe em vagido.

Encimando toda a estrutura define-se agora um templo, sem imagens santas, sem hóstia essencial, um templo surgido do confluir de energias esparsas e sem origem. Do templo sai, por fim, a voz cava que anuncia a síntese.

Permanece quedo, não te deixes guiar por signos, os paraísos são sempre anunciados por trombetas e não por murmúrios, as palavras de hoje são ainda as palavras de ontem e os sinais apontam neste tempo para universos proibidos.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Palavras são catarse. Onde me resvalo em todos os sorrisos proibidos e em todos os beijos saciados em demandas escondidas. Que me ilumino em lágrimas que não ofereço e em dores que dos outros ausento. É nas palavras que afinal vivo tudo aquilo que na verdade não me acontece. E é, em cada uma delas, que por isso, morro lentamente.

Um abraço
anita

11 outubro, 2004 11:59  
Blogger Lia said...

Gosto de te "ver" criar e do que crias. Se calhar é porque andavas a desperdiçar um talento...e isso é pecado :)

11 outubro, 2004 19:12  
Blogger PQ said...

Obrigado pelos vossos comentários :)

12 outubro, 2004 08:36  

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