sábado, dezembro 04, 2004

Carta ao Pai Natal

Eu, abaixo assinado, idealista dos sete costados, romântico relapso e não praticante, senhor de grandes e luminosas ideias vegetais, autor de sonantes prosas e de caducos versos sem rima, amante do calor e dos doces, fumador obsessivo de cigarros, ateu convicto e feroz, devorador de comida enlatada e babado por bacalhau, social-confundido nos caminhos da Polis, anarquista por nascimento e gozão por opção, pensador e repentista, impulsivo e meditabundo, louco por cabelos compridos e mulheres bonitas, consumidor convertido de jovens feias e burras vivendo em corpos apetecidos, intelectual de ideias feitas e descrente no pensamento, leal e intransigente, agressivo nas ideias e morno no agir, pecador de sorriso trocista, eu, que sou tudo isto e o mais que não enxergo, decidi escrever uma carta ao Pai Natal.

 

Quero o calor de volta, os dias luminosos e compridos, as noites mornas e pintalgadas.

Quero a paz perdida de saber tudo, o amanhã e o depois, todo o tempo assinado.

Quero a surpresa de um encontro sem carimbo, sem limite de página.

Quero empolgar-me de novo, correr para o abraço e sofrer a perda se ela lá morar.

Quero ser feliz como uma criança, sem pensar, sem medir, sem tirar a prova dos nove.

Quero morrer cada noite que me deito e quero renascer no espreguiçar da manhã.

Quero ter certezas, persegui-las, suar em cada degrau e sorrir no fim do caminho.

Quero voltar a chorar de prazer, revirar-me na cama e nunca mais adormecer.

Quero sentir o sabor da revolta, cerrar os dentes e dar com os punhos na mesa.

Quero dizer merda, gritar todas as palavras e abrir os olhos de cólera.

Quero encarar olhos e despejar o ódio, matar os mortos com palavras aguçadas.

Quero voltar aos ideais, viver os dias no prazer da norma que é só minha.

Quero só o futuro feito presente que o passado não foi nada nem pesa.

Quero ver claro e desenhar rotas em zigzag para sítio nenhum.

Quero dizer não, amar a verdade, ser solidário e desprezar a moda.

 

Quero tudo isto e já, de bandeja, sem esforço, dado. Depositado no sapatinho como prenda de Natal e como recompensa de me ter portado tão mal no último ano.

2 Comments:

Blogger Lia said...

Querer é poder! Mas sem esforço, "dado e arregaçado", como dizia o meu avô, só se dão gases ( para não dizer outra coisa) e mesmo assim ninguém os quer! lolololol

06 dezembro, 2004 18:39  
Blogger PQ said...

Querem lá ver que tenho de me portar bem para conseguir tão parca coisa...

06 dezembro, 2004 19:08  

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