segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Vou em mim...


Vou em mim
como entre bosques
Vou-me fazendo paisagem
Para me desconhecer.
Nos meus sonhos sinto  aragem,
Nos meus desejos descer

Passeio entre arvoredo
Nos meandros de quem sinto
Quando sinto sem sentir......
Vaga clareira de instinto
Pinheiral todo a subir....

Sorriso que no regato
Através dos ramos curvos
O sol , espreitando, achou.
Fluir de água, com tons turvos,
Onde uma pedra adensou.

Grande alegria das mágoas
Quando o declive da encosta
Apressa o passo ou querer...
De que é que a minha alma gosta
Ser que eu tenho de saber.

Muita curva, muita coisa
Todas com gentes de fora
Na alma que sinto assim.
Que paisagem, quem se ignora!
Meu Deus, que é feito de mim?

Fernando Pessoa

1 Comments:

Blogger Lia said...

Não conhecia este poema. À medida que o ia lendo, e embora esta temática do não pensar seja um "leit-motiv" de Pessoa, ia tentando descobrir o seu autor. Sem sucesso! Imaginava talvez um Miguel Torga, pela forma e ritmo melodiosos do poema. Agrada-me muito mais esta faceta do poeta. Resumindo: gostei!

22 fevereiro, 2005 09:25  

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